Alfabeto russo: sua origem e história

À esquerda: um texto em caráteres cirílicos antigos, à direita, em caráteres glagolíticos

Nos tempos antigos os eslavos tinham dois alfabetos, cada um deles continha mais de 40 letras. Hoje em dia, o alfabeto russo é composto por “apenas” 33 letras. Como isso aconteceu? Que provações e dificuldades enfrentou o alfabeto russo?

Primeiramente, vamos definir o que é o alfabeto russo. É uma variante do alfabeto eslavo cirílico utilizada no idioma russo. Desta forma, o alfabeto russo é muito parecido com o alfabeto ucraniano, sérvio ou búlgaro, que também são variantes do alfabeto eslavo cirílico.

O início do alfabeto eslavo

Foi o príncipe da Grande Morávia (hoje parte da República Tcheca) Rastislau quem iniciou a criação de um alfabeto para os povos eslavos. Inicialmente, ele só queria intensificar a influência política de seu reino, e por isso pediu ao Papa que enviasse mestres para formarem seus próprios sacerdotes eslavos. Assim o reino eslavo teria seu próprio alto clero e não seria dependente do clero germânico. Mas o Papa simplesmente ignorou seu pedido.

Então o príncipe Rastislau decidiu buscar ajuda em outro lugar e enviou seus embaixadores ao imperador bizantino Miguel III, mas já pedindo para os mestres que estabelecessem na Grande Morávia um aparato clerical local. O imperador atendeu ao pedido de Rastislau, e por volta do ano 863, enviou à Grande Morávia dois monges irmãos, Cirilo e Metódio.

Por que o imperador bizantino decidiu ajudar Rastislau? O motivo era simples – assim ele expandiria a influência de seu ramo ortodoxo da fé cristã.

Ao chegar à Grande Morávia, Cirilo e Metódio perceberam que os eslavos não tinham um alfabeto próprio. Então os dois irmãos decidiram criar um novo alfabeto para os povos eslavos e traduzir os textos litúrgicos utilizando este novo alfabeto. Mas os detalhes do trabalho de Cirilo e Metódio continuam desconhecidos.

Santos Cirilo e Metódio no selo comemorativo

O problema é que há dois alfabetos eslavos, cirílico e glagolítico, e os historiadores ainda não sabem qual surgiu primeiro, e por isso não podem determinar qual dos dois foi criado pelos santos Cirilo e Metódio.

Texto escrito em caráteres glagolíticos

Todavia, existem duas hipóteses. De acordo com a primeira, os irmãos inventaram o alfabeto glagolítico, que um pouco mais tarde foi reformado por um dos seus discípulos, Clemente, e assim surgiu o alfabeto cirílico. Entre os argumentos a favor desta hipótese esta o fato de que existem pergaminhos cujo texto foi apagado para permitir a reutilização (tais pergaminhos se chamam palimpsestos) é possível ler o glagolítico que foi removido, e o cirílico sempre aparece em cima dele. Mais um fato é que a língua de manuscritos escritos em alfabeto glagolítico é mais arcaica do que a dos escritos em alfabeto cirílico.

Outra versão é que Cirilo e Metódio criaram o alfabeto cirílico que foi um pouco modernizado por Clemente, enquanto o glagolítico foi inventado depois do cirílico somente como uma cifra para ocultar a informação escrita nos tempos em que o alfabeto cirílico era proibido. Os adeptos desta ideia notam que o novo alfabeto eslavo devia ter aproximado os eslavos com os gregos, enquanto o alfabeto glagolítico fez o contrário.

Bom, há também ideias de que antes de Cirilo e Metódio, os eslavos já tinham seu próprio alfabeto.

 

Segundo uma das hipóteses, este alfabeto era o glagolítico, assim Cirilo e Metódio inventaram o cirílico. Enquanto outra versão afirma que os eslavos já tinham o alfabeto cirílico e os irmãos teriam inventado o glagolítico.

De qualquer maneira, hoje em dia a hipótese dominante é que os santos Cirilo e Metódio criaram o alfabeto glagolítico, que em seguida foi transformado por um de seus discípulos no cirílico.

Texto escrito em caráteres cirílicos

Proibição do alfabeto eslavo

E agora um pouco mais sobre as razões porque o alfabeto cirílico foi proibido. No século IX, a Igreja Católica ainda estava muito longe do Grande Cisma do Oriente de 1054 – a separação da Igreja Católica em Apostólica Romana e Apostólica Ortodoxa. No entanto, as diferenças entre os dois ramos começaram a surgir já nessa época. Assim, a tradição romana reconhecia apenas três línguas nas quais poderiam ser escritos textos religiosos –  latim, hebraico e grego. O Bizâncio, por sua vez, preferia estimular o desenvolvimento de novas línguas nacionais, e foi por isso que o imperador Miguel III atendeu ao pedido do príncipe Rastislau.

Claro que paroquianos preferiam as igrejas nas quais os serviços foram prestados em sua língua e não numa língua pouco compreensível ou incompreensível completamente, como foi o caso do latim na Europa do Leste. As igrejas romanas começaram a se despovoar, os sacerdotes a empobrecer e perder sua influência, e foi por essa razão que o Papa proibiu os serviços na língua eslava. Mas apesar da proibição Metódio (seu irmão morreu ainda em 869 logo depois da criação do alfabeto eslavo) continuou suas atividades de missionário. Mais tarde ele conseguiu obter a anulação daquela proibição. Mas vários anos depois de sua morte em 885, a proibição foi reintroduzida.

 

Os discípulos de Metódio continuaram propagando a cultura eslava também apesar da proibição do Papa. Eles encontraram asilo na Bulgária, cujo então governador era um político forte e podia se opor ao Papa. Infelizmente, depois da sua morte a influência da Bulgária diminuiu drasticamente, e as repressões contra a língua eslava continuaram. Apenas depois da conversão da Rússia ao cristianismo em 988, a perseguição da cultura e literatura eslavas terminou. Começou uma nova era de florescimento da língua eslava.

Alfabetos cirílico e glagolítico

Não sabemos como eram os alfabetos no momento de sua criação, mas podemos analisar sua composição “clássica”. Assim, o cirílico foi composto de 43 letras – continha todas as letras gregas (24 letras) e 19 novas letras para designar os sons que estavam presentes nas línguas eslavas, mas não existiam no idioma grego. A origem da grafia de novas letras continua desconhecida.

 

O alfabeto glagolítico continha 41 letras, e sua grafia era muito esquisita. Destas 41 letras, 24 originaram do alfabeto grego, enquanto a origem da grafia das outras, bem como no caso de várias letras cirílicas, é um mistério para os cientistas. Mas há hipóteses de que foram usados os alfabetos albanês ou hebraico.

Sabe-se que o alfabeto cirílico foi utilizado no leste da Europa, a saber, nos países onde professaram cristianismo ortodoxo, enquanto o glagolítico se espalhou pelos países católicos – Croácia e provavelmente República Tcheca – nos tempos da proibição do alfabeto eslavo. Aliás, logo depois da introdução do alfabeto latino nestes países, o glagolítico caiu em desuso. A propósito, na Rússia o alfabeto glagolítico praticamente nunca foi utilizado.

Glagolítico, cirílico "clássico" e cirílico russo

Na Rússia o alfabeto cirílico continuou seu desenvolvimento. Porém, com o passar do tempo, o alfabeto e a língua falada se afastaram muito. Alguns sons desapareceram, e as letras correspondentes se tornaram inúteis. Chegou a hora de reformar o alfabeto russo.

 

Alfabeto civil de Pedro, O Grande

As primeiras reformas grandes atingiram o alfabeto russo nos tempos de Pedro, o Grande, no inicio do século XVIII. O imperador russo eliminou um grande número de letras, em sua maioria as duplicatas das letras já existentes. Por exemplo, em grego haviam letras diferentes para os sons “O curto” e “O longo”. Mas em russo não existia tal diferença, por isso a existência de duas letras para apenas um som era excessiva.


Entre outras iniciativas de Pedro, o Grande podemos citar a eliminação de sinais diacríticos, a introdução de letras minúsculas e a introdução de números arábicos. Antes dessas reformas os textos foram escritos somente em letras maiúsculas, enquanto os números foram designados por letras específicas.

O alfabeto de Pedro, o Grande recebeu o nome de “alfabeto civil” e continha oficialmente 35 letras, mas na realidade eram 37. Na época, as letras Ё e Й  eram consideradas apenas variações das letras Е e И.

Texto impresso em caráteres do "alfabeto civil"

Últimas grandes reformas

As últimas grandes reformas aconteceram no alfabeto russo já nos tempos dos bolcheviques, em 1917-1918. As reformas eliminaram mais quatro letras e mudaram as regras de ortografia e, em vários casos, de pronúncia.

O projeto da reforma da ortografia russa surgiu ainda no início do século XX, em 1904, e claro que na altura não tinha nenhum motivo político. Mas já que as reformas foram implementadas pelos bolcheviques, muitas pessoas viram nelas uma tentativa de romper as ligações com o regime anterior.

Até 1942 o alfabeto russo oficialmente continha 31 letras, mas na realidade foram usadas 33 letras, porque Ё e Й continuavam sendo consideradas variações de Е e И. E apenas em 1942, as letras Ё e Й obtiveram o estatuto oficial.

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